Eu disse à Lorena, minha analista, que quero ser livre e independente. Ao que ela respondeu: você pode. Basta aprender a lidar com as angústias específicas dessas condições. Eu achei tão lindo! Eu posso, basta aprender a lidar com as angústias específicas dessas condições. Eu posso! E possível! Há poder.
Eis que surgem as queridas angústas específicas dessas condições.
Há duas noites, sonhei que chorava muito. Ontem me lembrei disso, e percebi que há muito não chorava. Meditando hoje, percebi um bloqueio disfarçado de aceitação. Funciona assim: toda vez que eu penso em como às vezes é frustrante ter me separado. uma parte de mim observa isso e diz: sim, mas aconteceu e vamos aceitar.
Hoje eu decidi me sentir frustrada e só. Ontem passei o dia sozinha, deitada, muito cansada. Uma mistura de lua cheia, TPM, alimentação vegana, um date que foi bonzinho e me revelou carências...
Hoje, meditando, em estado de presença, vi as plantas se moverem com a brisa leve que bate. Cada uma à sua maneira, demonstrando tanta vida. Alguns raios de sol iluminam partes específicas de cada uma. As folhas de bambu parece que vibram de alegria. Tão pequenas, numerosas e dançantes...
Um beija flor, uma borboleta azul que aparece às vezes, e parece uma animação, de tão linda. Após entender que as borboletas estavam querendo me ensinar sobre metamorfose, percebi hoje que tenho reparado nas flores desabrochando. Não é lindo? Estou aprendendo a desabrochar. Solitária e bela como essa flor que tenho reparado diariamente desabrochar em camadas. Hoje ela amnheceu molhada pela chuva. Feliz, brilhando e com algumas pétalas amassadas.
Eu li que as flores são a iluminação da planta: um portal de conexão com o mundo espiritual que acessamos através da apreciação da beleza. Assim também são os pássaros em relação aos animais, e os cristais, em relação aos minerais.
Pois está aí: apreciar a beleza parece ser chave para muitas coisas: estado de presença, iluminação espiritual, gratidão, aceitação da realidade... e quanto mais penso sobre essas quatro coisas, mais parece que são uma só.
Então hoje deixei fluir e me senti tão substancialmente só. Como a flor, como a borboleta, como um beijar flor. Eu senti profundamente a obviedade que é: nascemos e morremos só. E aí mais uma vez senti falta da minha família e amigos. De sentir esse amor fácil. Mas esta é uma jornada que escolhi, e estou muito feliz que eu tenha decidido prolongar esta viagem. É empolgante pensar em tudo o que ainda vou viver. Como sempre digo, eu amo ter possibilidades: liberdade.
Também estou apreciando a beleza da frustração. Um paradoxo: aceitando que ainda não aceito completamente que todas as expectativas que criei sobre minha vida amorosa foram duramente frustradas. De certa forma, provoquei isso. Aliás... de todas as formas. Eu negligenciei a realidade e o cuidado comigo mesma em prol de uma ideia que foi se tornando cada vez mais vazia, sobrando apenas o contorno, o nome: casamento.
Não havia mais espaço para o amor. Um dia quando ri muito com João Lucas, João Vitor e outros amigos, eu disse: há tempos eu não ria assim. O Eduardo Vinícius observou; nossa, que triste. E ele estava certo. Aqui, agora, mesmo dentre algumas lágrimas... acho chocante que eu tenha ficado mais de algumas horas sem rir ou sorrir. Porque essas são ações que julgo tão naturais em mim. Sempre mentalizo em meu peito uma chama de alegria. Ela brilha forte.
Conheci uma mulher espírita de uns 40 anos aqui, a Andréia. Muito bonita e também lidando com algumas questões pessoais. Ela disse que se inspirou por mim, que tenho um brilho muito forte, muita energia. E é por isso que às vezes sofro, me agito, sinto ansiedade. Porque essa energia fica mal canalizada. E que se eu conseguir usar essa energia para ajudar os outros (ela diz que tenho uma mediunidade grande e aflorada), vou me sentir mais serena. Eu vi bastante verdade nessas palavras. E vou procurar alguma casa espírita quando for a hora.
Escrever, pra mim, é uma forma tão gentil e honesta de canalizar e organizar pensamentos... sinto muita gratidão por essa habilidade, por essa possibilidade. Em certo momento deste texto, pensei que entendo que o Tom tenha "pulado" pra outro relacionamento tão rapidamente. Não é fácil lidar com a solidão, especialmente quando se é uma pessoa que luta tão ferozmente contra a realidade do que se é. Eu sinto compaixão. Sinto falta dele, da parte essencial dele a que tive acesso. Da companhia, da amizade. Não vejo tanto sentido mais em falar isso pra ele ou em procurar a amizade dele. É isso: no momento, tudo o que posso aceitar é que ainda não aceito completamente essa separação. Não no meu coração. Mas racionalmente eu entendo que nada poderia ter sido diferente.
Duas vezes eu tive sonhos em que Tom e eu nos encontravávamos e tínhamos conversas muito específicas e interessantes. Nessas duas vezes, estávamos andando na rua de noite. Uma delas em Uberlândia. A outra não me lembro. Eu acredito que realmente nos encontramos no astral. Outros sonhos foram revelações do meu inconsciente. Consigo perceber a diferença.
Agora vou medindo e criando um equilíbrio entre distrações e contato comigo mesma. E tomando muito cuidado para não confundir distração com amor nessas relações e situações passageiras. Aprender a deixar ir: let it go, let it be!
Morro de São Paulo, 21 de setembro de 2024.


