sábado, 21 de setembro de 2024

Das angústias específicas de ser livre e independente

 Eu disse à Lorena, minha analista, que quero ser livre e independente. Ao que ela respondeu: você pode. Basta aprender a lidar com as angústias específicas dessas condições. Eu achei tão lindo! Eu posso, basta aprender a lidar com as angústias específicas dessas condições. Eu posso! E possível! Há poder.

Eis que surgem as queridas angústas específicas dessas condições. 

Há duas noites, sonhei que chorava muito. Ontem me lembrei disso, e percebi que há muito não chorava. Meditando hoje, percebi um bloqueio disfarçado de aceitação. Funciona assim: toda vez que eu penso em como às vezes é frustrante ter me separado. uma parte de mim observa isso e diz: sim, mas aconteceu e vamos aceitar.

Hoje eu decidi me sentir frustrada e só. Ontem passei o dia sozinha, deitada, muito cansada. Uma mistura de lua cheia, TPM, alimentação vegana, um date que foi bonzinho e me revelou carências...

Hoje, meditando, em estado de presença, vi as plantas se moverem com a brisa leve que bate. Cada uma à sua maneira, demonstrando tanta vida. Alguns raios de sol iluminam partes específicas de cada uma. As folhas de bambu parece que vibram de alegria. Tão pequenas, numerosas e dançantes...

Um beija flor, uma borboleta azul que aparece às vezes, e parece uma animação, de tão linda. Após entender que as borboletas estavam querendo me ensinar sobre metamorfose, percebi hoje que tenho reparado nas flores desabrochando. Não é lindo? Estou aprendendo a desabrochar. Solitária e bela como essa flor que tenho reparado diariamente desabrochar em camadas. Hoje ela amnheceu molhada pela chuva. Feliz, brilhando e com algumas pétalas amassadas. 

Eu li que as flores são a iluminação da planta: um portal de conexão com o mundo espiritual que acessamos através da apreciação da beleza. Assim também são os pássaros em relação aos animais, e os cristais, em relação aos minerais.

Pois está aí: apreciar a beleza parece ser chave para muitas coisas: estado de presença, iluminação espiritual, gratidão, aceitação da realidade... e quanto mais penso sobre essas quatro coisas, mais parece que são uma só. 

Então hoje deixei fluir e me senti tão substancialmente só. Como a flor, como a borboleta, como um beijar flor. Eu senti profundamente a obviedade que é: nascemos e morremos só. E aí mais uma vez senti falta da minha família e amigos. De sentir esse amor fácil. Mas esta é uma jornada que escolhi, e estou muito feliz que eu tenha decidido prolongar esta viagem. É empolgante pensar em tudo o que ainda vou viver. Como sempre digo, eu amo ter possibilidades: liberdade. 

Também estou apreciando a beleza da frustração. Um paradoxo: aceitando que ainda não aceito completamente que todas as expectativas que criei sobre minha vida amorosa foram duramente frustradas. De certa forma, provoquei isso. Aliás... de todas as formas. Eu negligenciei a realidade e o cuidado comigo mesma em prol de uma ideia que foi se tornando cada vez mais vazia, sobrando apenas o contorno, o nome: casamento. 

Não havia mais espaço para o amor. Um dia quando ri muito com João Lucas, João Vitor e outros amigos, eu disse: há tempos eu não ria assim. O Eduardo Vinícius observou; nossa, que triste. E ele estava certo. Aqui, agora, mesmo dentre algumas lágrimas... acho chocante que eu tenha ficado mais de algumas horas sem rir ou sorrir. Porque essas são ações que julgo tão naturais em mim. Sempre mentalizo em meu peito uma chama de alegria. Ela brilha forte.

Conheci uma mulher espírita de uns 40 anos aqui, a Andréia. Muito bonita e também lidando com algumas questões pessoais. Ela disse que se inspirou por mim, que tenho um brilho muito forte, muita energia. E é por isso que às vezes sofro, me agito, sinto ansiedade. Porque essa energia fica mal canalizada. E que se eu conseguir usar essa energia para ajudar os outros (ela diz que tenho uma mediunidade grande e aflorada), vou me sentir mais serena. Eu vi bastante verdade nessas palavras. E vou procurar alguma casa espírita quando for a hora.

Escrever, pra mim, é uma forma tão gentil e honesta de canalizar e organizar pensamentos... sinto muita gratidão por essa habilidade, por essa possibilidade. Em certo momento deste texto, pensei que entendo que o Tom tenha "pulado" pra outro relacionamento tão rapidamente. Não é fácil lidar com a solidão, especialmente quando se é uma pessoa que luta tão ferozmente contra a realidade do que se é. Eu sinto compaixão. Sinto falta dele, da parte essencial dele a que tive acesso. Da companhia, da amizade. Não vejo tanto sentido mais em falar isso pra ele ou em procurar a amizade dele. É isso: no momento, tudo o que posso aceitar é que ainda não aceito completamente essa separação. Não no meu coração. Mas racionalmente eu entendo que nada poderia ter sido diferente. 

Duas vezes eu tive sonhos em que Tom e eu nos encontravávamos e tínhamos conversas muito específicas e interessantes. Nessas duas vezes, estávamos andando na rua de noite. Uma delas em Uberlândia. A outra não me lembro. Eu acredito que realmente nos encontramos no astral. Outros sonhos foram revelações do meu inconsciente. Consigo perceber a diferença. 

Agora vou medindo e criando um equilíbrio entre distrações e contato comigo mesma. E tomando muito cuidado para não confundir distração com amor nessas relações e situações passageiras. Aprender a deixar ir: let it go, let it be!

Morro de São Paulo, 21 de setembro de 2024. 

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

 Conversar com minha criança e dizer que pare de fantasiar, não precisa ter medo do abandono.


Ok, você está ansiosa agora, mas vai passar. Aceite a ansiedade, continue suas tarefas devagar, faça algo com foco no corpo.

Deixe as coisas livres. Você está segura. Abandone o medo do abandono.

Aqui e agora você não tem nenhum problema real.

Esteja aqui agora.

Respire.

Segure seu rosto com uma mão.

Respire. 3/6  10x

Boceje.

Respire. 3/6 10x

Feche os olhos.

Respire mais fundo. solte todo o ar.

Sorria

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

A prece que permanece
Prevalece

Morrer em vida... sair do ego (estar viva enfim)

 De novo...

desapegar das coisas do ego.

Desapegar da identidade que criei de um relacionamento. Meu eu é mais profundo e permanece.

Estou com muito medo de ter que terminar. Mas ele tá muito na minha. E eu muito na dele.

Quero que o amor e a disposição de "nos curarmos" juntos baste.

Nos amamos. 

Meu eu permanece. Preciso resgatá-lo. E isso não significa que meu relacionamento será pior ou que não é importante. Só significa que preciso mais de mim do que dos outros. Preciso me cultivar antes.


Verbos:

reconciliar

agradecer

enfrentar (os medos)

Confiar


Esse medo de terminar é dependência. Porque é mais provável que a gente não termine.

Só preciso me sentir forte de novo.

Eu tenho certeza de que as coisas só melhoram. É daqui pra cima! Eu sei disso. Minha vida é abençoada, e eu aprendo com as dificuldades.


...

De repente olho pra mim e...
Onde estou?
Dentro de roupas, cabelos, dinheiros, amores,
Quem sou?

Quando olho para o abismo, e ele me olha de volta...
O que vê?

Quando me escrevo e me leio
Digo sim
E me encanto em mim
  

Organizar a chuva numa enxurrada em linha reta: o texto
Escrever no cimento
Pretexto para
Concretizar pensamentos
E assim me encontro mais cheia de mim
Estou viva enfim


domingo, 11 de fevereiro de 2024

Não existe morte

Hoje aprendi que o medo de morrer pode vir do medo de se desvencilhar das coisas do ego. E faz sentido! Eu coloquei tanta energia egóica na imagem do meu relacionamento, na minha vida na praia, no meu negócio... que parece que se qualquer uma dessas coisas está sob ameaça de mudar ou se acabar, é a morte. Mas preciso entender profundamente que a morte do ego não é minha morte, e que já passei por isso antes.

Em janeiro de 2021, antes de me mudar para Floripa, quando me vi sem meu apartamento, sem meus empregos, sem meu relacionamento, eu chorei desesperadamente. Nada daquilo era eu, e eu sobrevivi. 

Vou tentar fazer mais meditações não guiadas, só com mantra ou flautas, frequências... para que eu consiga observar melhor meus pensamentos. Sinto que essa tontura vem de fluxos de pensamentos e sentimentos que estou bloqueando por medo. Hoje li no livro O Poder do Agora uma citação de São Paulo que diz que tudo sob o que se joga luz vira luz também. Então preciso fazer isso: iluminar esses medos e outros sentimentos, por mais que isso pareça aterrorizante. Só assim eles diminuirão e perderão importância. Só de pensar já fico meio nervosa. Mas aos poucos conseguirei. 

Amanhã fazem 2 semanas que estou tomando Ansitec para ansiedade, e eu sinto que ele ajuda. Mas também sinto que poderia ser mais eficaz. Não sei... em 10 dias tenho uma nova consulta.

Vim ficar com minha família para receber alguns cuidados, especialmente dos meus pais. Mas hoje eu senti culpa, como se estivesse que estar muito bem para cuidar da minha família. Muito dessa culpa é causada pela minha irmã. Ela tem uns jeitos muito elaborados de provocar culpa em todos, o que é uma pena. 

Por causa disso fiquei pensando que eu caio muito nas "guilt-trips" que as pessoas me jogam. Isso só pode ser porque esse sentimento já está em mim também. Mais uma coisa para mudar. É cansativo passar por esses momentos, às vezes me preocupo com a possibilidade das coisas continuarem piorando. Mas no fundo, o que levo a sério mesmo, é a fé de que em algum momento tudo estará melhor, e eu estarei mais forte. 

Quero resistir ao desejo de ficar pedindo pro Tom vir pra cá, pois precisamos de espaço. Eu acabei me tornando tão dependente, que fico me sentindo mais fraca e assustada longe dele. Então vou tirar esse mês pra resolver isso. Eu fico mais segura na presença dos meus pais. Os dois juntos. Espero tê-los assim ainda por muito tempo. 

Meu pai tem novos procedimentos de saúde. Hoje fiquei pensando em como eu estava assustada por ir morar no Rio quando ele estava doente, e a preta velha me disse que eu ainda teria meu paizinho por muitos anos. Por algum motivo eu sinto que ele vai ficar bem agora também. Espero que seja uma boa intuição. 

Hoje fiz a meditação do Caminhante do Céu do Tzolkin. Foi uma das meditações mais intensas da minha vida. Senti uma tensão na testa, como se a estivesse franzindo. Por mais que tentasse relaxar, ainda sentia forte. Então percebi que na verdade era meu terceiro olho. Quando percebi, a energia circulou melhor. Depois, a meditação me levou para o chacra coronário e os outros acima. Foi muito intensa. Isso me faz pensar que devo me entregar e confiar mais na minha intuição, pois ela está aflorando. E é com ela que estou sentindo confiança de que meu pai ficará bem. Espero que sim.

Vou deixar um trecho do livro O Poder do Agora que me impactou bastante hoje:


Quem sabe eu estou me aproximando do segredo da vida? 
Estou pensando em desativar as redes sociais por um tempo por esse motivo. Para estar mais resistente às armadilhas do ego. Para me desvencilhar dos meus elementos egóicos. Para parar de me comparar com os outros, pois não estou num momento tão bom. E também como "jejum", algo que a Adri que faz minha sobrancelha me recomendou. Uma espécie de promessa, um pacto com Deus de ficar 1 semana ou mais sem algo que eu goste e pedir por respostas. Me parece uma boa. Talvez eu já comece amanhã. 

Estava com medo de escrever, medo do que ia encontrar aqui. Mas foi bom. Não encontrei nada mirabolante. Quem sabe na próxima eu já consiga fazer uma lista dos meus medos e trazê-los à luz!



Quando Deus Aparece - Martha Medeiros

Tenho amigas. Muitas. Uma delas, que é como uma irmã, me escreveu um e-mail poético, dia desses. Ela comentava, em detalhes, sobre o recital que assistiu do pianista Nelson Freire, recentemente.

Tomada pela comoção durante o espetáculo, ela finalizou o e-mail assim: “Nessas horas Deus aparece”.

Fiquei com essa frase na cabeça. De fato, Deus não está em promoção, se exibindo por aí. Ele escolhe, dentro do mais rigoroso critério, os momentos de aparecer pra gente.

Não sendo visível aos olhos, ele dá preferência à sensibilidade como via de acesso a nós. Eu não sou uma católica praticante e ritualística – não vou à missa. Mas valorizo essas aparições como se fosse a chegada de uma visita ilustre, que me dá sossego à alma.

Quando Deus aparece pra você?

Pra mim, ele aparece sempre através da música, e nem precisa ser um Nelson Freire. Pode ser uma música popular, pode ser algo que toque no rádio, mas que chega no momento exato em que preciso me reconciliar comigo mesma. De forma inesperada, a música me transcende.

Deus me aparece nos livros, em parágrafos em que não acredito que possam ter sido escritos por um ser mundano: foram escritos por um ser mais que humano.

Deus me aparece – muito! – quando estou em frente ao mar. Tivemos um papo longo, cerca de um mês atrás, quando havia somente as ondas entre mim e ele. A gente se entende em meio ao azul, que seria a cor de Deus, se ele tivesse uma.

Deus me aparece – e não considere isso uma heresia – na hora do sexo, desde que feito com quem se ama. É completamente diferente do sexo casual, do sexo como válvula de escape. Diferente, preste atenção. Não quer dizer que qualquer sexo não seja bom.

Nesse exato instante em que escrevo, estou escutando My sweet Lord cantado não pelo George Harrison (que Deus o tenha), mas por Billy Preston (que Deus o tenha, também) e posso assegurar: a letra é um animado bate-papo com ele, ritmado pelo rock´n´roll. Aleluia.

Deus aparece quando choro. Quando a fragilidade é tanta que parece que não vou conseguir me reerguer.

Quando uma amiga me liga de um país distante e demonstra estar mais perto do que o vizinho do andar de cima. Deus aparece no sorriso do meu sobrinho e no abraço espontâneo das minhas filhas.

E nas preocupações da minha mãe, que mãe é sempre um atestado da presença desse cara.

E quando eu o chamo de cara e ele não se aborrece, aí tenho certeza de que ele está mesmo comigo. 

sábado, 10 de fevereiro de 2024

A Prece de Lóri - Clarice Lispector

 "— Estive lendo um dia um filósofo, sabe. Uma vez segui um conselho dele e deu certo. Era mais ou menos isto: é só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos é que começamos a saber. Então pensei em você que não fala uma palavra de filosofia comigo e quando estamos juntos, pois é, quando estamos juntos você até parece um sábio que não quer mais ser sábio e até, sabe, até se dá ao luxo de disfarçadamente se angustiar como qualquer um de nós.


Ulisses estava atento, imóvel. Lóri continuou:

— Parece tão fácil à primeira vista seguir conselhos de alguém. Seus conselhos, por exemplo. Já agora ela falava sério:

— Seus conselhos. Mas existe um grande, o maior obstáculo para eu ir adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho. E com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma.Ela jamais falara tantas palavras em seguida. Por isso queria evitar o principal. De repente porém notou que se não dissesse o final, nada teria dito, e falou:

— Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece.Sim, tudo se esclarecia e ela surgia de dentro de si mesma quase com esplendor.

— Sim, disse Ulisses. Mas você se engana. Eu não dou conselhos a você. Eu simplesmente — eu — eu acho que o que eu faço mesmo é esperar. Esperar talvez que você mesma se aconselhe, não sei, Lóri, juro que não sei, às vezes me parece que estou perdendo tempo, às vezes me parece que pelo contrário, não há modo mais perfeito, embora inquieto, de usar o tempo: o de te esperar. Você sabe rezar?

— O quê? perguntou ela em sobressalto.

— Não rezar o Padre-Nosso, mas pedir a si mesma, pedir o máximo a si mesma?

— Não sei se sei, nunca tentei. Isto é um conselho? perguntou com ironia.

Ele se perturbou:

— Acho que foi.

Esqueça o que eu disse.

Mas ela não esqueceu.Lavava o rosto devagar, penteava-se devagar, já de camisola para dormir. Adiava, adiava. Escovou mais uma vez os dentes. Sua testa estava franzida, sua alma trêmula. Ela sabia que ia tentar rezar e assustava-se. Como se o que fosse pedir a si mesma e ao Deus precisasse de muito cuidado: porque o que pedisse, nisso seria atendida. Foi à geladeira, bebeu um copo de água: agia como se tivesse sido hipnotizada por Ulisses. E ainda um ínfimo movimento de revolta contra o hipnotismo a que parecia ter sido sujeita fazia-a adiar o que viesse.

Pedir? Como é que se pede? E o que se pede?
Pede-se vida?
Pede-se vida.
Mas já não se está tendo vida?
Existe uma mais real. O que é real?

E ela não sabia como responder. Às cegas teria que pedir. Mas ela queria que, se fosse às cegas, pelo menos entendesse o que pedisse. Ela sabia que não devia pedir o impossível: a resposta não se pede. A grande resposta não nos era dada. É perigoso mexer com a grande resposta. Ela preferia pedir humilde, e não à sua altura que era enorme: Lóri sentia que era um enorme ser humano. E que devia tomar cuidado. Ou não devia? A vida inteira tomara cuidado em não ser grande dentro de si para não ter dor.

Não, não devia pedir mais vida. Por enquanto era perigoso. Ajoelhou-se trêmula junto da cama pois era assim que se rezava e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor: alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém." *

(*) Extraído da obra "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres" de Clarice Lispector.

Preces Clarice Lispector



"Eu peço a Deus tudo o que eu quero e preciso. É o que me cabe. Ser ou não ser atendida – isso não me cabe a mim, isto já é matéria-mágica que se me dá ou se retrai. Obstinada, eu rezo. Eu não tenho o poder. Tenho a prece."



"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar."




Que o Deus venha

O Deus tem que vir a mim

já que não tenho ido a Ele.

Que o Deus venha: por favor.

Mesmo que eu não mereça. Venha.

Ou talvez os que menos merecem

mais precisem.

Sou inquieta e áspera e desesperançada.

Embora amor dentro de mim eu tenha.


Só que não sei usar amor.

Às vezes me arranha como se fossem farpas.

Se tanto amor dentro de mim recebi

e no entanto continuo inquieta

é porque preciso que o Deus venha.

Venha antes que seja tarde demais.

Corro perigo como toda pessoa que vive.

E a única coisa que me espera

é exatamente o inesperado.



Fonte: Clarice Lispector. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 2019, p. 63






segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

O mar como um anel em minha cintura

 

ODE AO DIA FELIZ


DESTA vez deixa-me
ser feliz,
nada aconteceu a ninguém,
não estou em parte alguma,
acontece somente
que sou feliz
pelos quatro lados
do coração, andando,
dormindo ou escrevendo.
O que vou fazer, sou
feliz.
Sou mais inumerável
que o pasto
nas pradarias,
sinto a pele como uma árvore rugosa
e a água abaixo,
os pássaros acima,
o mar como um anel
em minha cintura,
feita de pão e pedra, a terra
o ar canta como um violão.

Tu ao meu lado na areia,
és areia,
tu cantas e és canto,
o mundo
é hoje minha alma,
canto e areia,
o mundo
é hoje tua boca,
deixa-me
em tua boca e na areia
ser feliz,
ser feliz porque sim, porque respiro
e porque tu respiras,
ser feliz porque toco
teu joelho
e é como se tocasse
a pele azul do céu
e seu frescor.

Hoje deixa-me
a mim só
ser feliz,
com todos ou sem todos,
ser feliz
com o pasto
e a areia,
ser feliz
com o ar e a terra,
ser feliz,
contigo, com tua boca,
ser feliz.

Pablo Neruda )
Poema “Oda al día feliz” de Pablo Neruda, escrito em Isla Negra. Publicado em “Odas elementales”, em 1954. Tradução livre de Fabio Rocha.


Algumas flores murcharam, mas pelo menos não eram de plástico

Acabei de sair da aula de argilaterapia. Argila-terapia?

Quem diria que eu ficaria orgulhosa por fazer uma esfera de argila bem bonita?

E me veio uma lembrança logo em seguida:

No segundo ano do ensino médio, com 16/17 anos, eu fui eleita representante de classe. Muito amada por meu povo, sim! Era ótimo, íamos às reuniões, comíamos chocolates chiques e ficávamos mais próximas dos professores legais. 

Naquele ano eu preparei sozinha um gráfico e apresentação mostrando que se os alunos participassem de todas as atividades obrigatórias, teriam menos de horas de ócio por dia. Minha professora preferida elogiou minha oratória, disse que eu podia trabalhar em TV. Fiquei muito orgulhosa. Depois disso, nossa carga horária de atividades obrigatórias diminuiu.

Bom... naquele mesmo ano eu comecei a vadiagem no sentido não sexual da palavra. Matava algumas aulas de educação pra ficar na grama olhando o céu, subi com a Renata no teto do teatro, o que rendeu o maior bafafá. Muitas idas à coordenação.

Eis que, numa dessas, a coordenadora me disse que eu não poderia agir daquela forma sendo representante de classe. E eu, com toda minha petulância adolescente, respondi sem titubear que podia sim, pois eu não faltava com nenhuma obrigação de representante de turma, e que meus atos só prejudicavam a mim mesma, pessoalmente. No fundo eu sabia que estava forçando a barra. 

Mas hoje estou pensando é nisso. Estou em um momento de retomada da minha individualidade, prosseguindo de onde parei em 2021 quando conheci o Tom. A gente se conheceu e tudo mais ficou em stand-by. Tiramos 3 anos para viver esse romance na paradisíaca ilha da Magia, para abrir meu negócio. E agora aqui estou eu novamente me procurando dentro de mim. O bom é que estou encontrando. O Tom está passando pelo mesmo processo. 

E agora eu vou me organizando para seguir no futuro cumprindo com meus deveres sem pensar que é acietável me prejudicar pessoalmente.


domingo, 4 de fevereiro de 2024

Honey baby and honey bee


Ontem foi um dia que começou com muita ansiedade, mas terminou lindo! É incrível o poder terapêutico de um banho de mar para mim. Especialmente se mergulhar a cabeça. Fomos de bike à praia por volta das 17h, Tom e eu... minhas coisas preferidas: bike, praia e Tom. Estava lindo, o mar estava quentinho, levei iogurte grego de morango pra comer lá (tem gosto de danoninho, bom pra criança interior).

Entramos na água, e o Tom veio um pouco mais fundo do que costuma porque estava quentinha. Apesar do nosso cansaço recente, entramos num estado de muito amor juntos na água. Peixinhos, abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim. Nesses momentos me esqueço do medo imenso da morte que tenho sentido. Há tanta vida no mar...

Até que sobre as ondas calmas percebi uma abelha, abelhinha.... lutando, sendo levada. Para ela, as ondas estavam bem agitadas. Então fiquei no dilema de ajudá-la, mas tive medo de pegá-la com a mão e levar uma ferroada. Estava quase desistindo, então tive a ideia de usar o boné do Tom como objeto para que ela subisse e se secasse. Assim fiz.

Ela subiu com dificuldade e ficou andando pelo boné, secando primeiro as patinhas, depois o corpinho, depois as asinhas. Tudo isso levou uns 5 minutos. Tom e eu observando maravilhados. Pensando no que os amigos americanos pensariam. "Essa é nossa vida: venho à praia, fumo 1 e salvo abelhas." Save the bees!!!

A honey bee começou a testar as asinhas, estávamos empolgados para o momento do vôo! Então ela levantou voo, mas caiu novamenta na água. Oh nooo! Eu disse que ela devia estar ferida. Tom usou o boné para pegá-la novamente. Dessa vez ela estava exausta e ainda mais enxarcada. Ele foi com ela para a areia e deixou o boné secando na canga, longe dos pássaros que poderiam comê-la. Se distraiu um pouco, e ela sumiu.

Tom voltou para a água encantado e feliz, ela tinha voado livre! Que bom. Ficamos mais uns instantes na água muito apaixonadinhos. Saímos rindo, nos secamos com frio, pois ventava bastante. 

Até que de repente... Tom me mostrou, na beira da canga, o corpinho de abelhinha tão pequeno encolhido. Não me abalei muito, ela estava mesmo muito fraquinha. Uma abelhinha dessas europeia vive de 30 a 60 dias. Uma vida tão curta, mas será longa para uma abelhinha?

Tenho sentido muito medo de morrer. Medo de estar sozinha. Será que eu morro quando estou sozinha porque estou abdicada da minha individualidade? Escrever aqui já é um exercício de retorno a mim mesma. Um texto sem muita preocupação com forma, deixando um pouco de lado o controle. 

Esses temas voltam a mim nos momentos difícies: o medo, o medo das coisas que não controlamos, e o medo do que há de mais incontrolável: a morte. Quando estou vivendo muito, não encontro tempo de pensar na morte.

A morte da abelhinha foi numa tarde bonita, o pôr do sol mais bonito que vi nos últimos tempos. Não sei se foi uma morte serena, "é doce morrer no mar". Mas foi natural. E o sol se pôs, os turistas empatocaram suas coisas, nós nos secamos e voltamos pra casa para tomar banho (convenci o Tom a tomar banho junto, ele acha estranho) e jantar num estado de relaxamento que só o pós mar me dá.




...

Estou indo para Uberlândia essa semana, decidi ontem. Quero voltar às minhas raizes, aterrar. Ser cuidada pelo amor incondicional da minha mãe. Tô precisando disso. O Tom tem estado cansado, mal conseguindo cuidar de si. E eu tenho demandado muito cuidado. Espero que seja bom!

Um dos meus objetivos lá será voltar a ocupar meu papel de filha e encontrar paz nele. Não ser mais mãe dos meus irmãos e nem dos meus pais. Respeitar as escolhas de cada um e sentir menos culpa. Sentir-me livre!