"Eu peço a Deus tudo o que eu quero e preciso. É o que me cabe. Ser ou não ser atendida – isso não me cabe a mim, isto já é matéria-mágica que se me dá ou se retrai. Obstinada, eu rezo. Eu não tenho o poder. Tenho a prece."
"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar."
Que o Deus venha
O Deus tem que vir a mim
já que não tenho ido a Ele.
Que o Deus venha: por favor.
Mesmo que eu não mereça. Venha.
Ou talvez os que menos merecem
mais precisem.
Sou inquieta e áspera e desesperançada.
Embora amor dentro de mim eu tenha.
Só que não sei usar amor.
Às vezes me arranha como se fossem farpas.
Se tanto amor dentro de mim recebi
e no entanto continuo inquieta
é porque preciso que o Deus venha.
Venha antes que seja tarde demais.
Corro perigo como toda pessoa que vive.
E a única coisa que me espera
é exatamente o inesperado.
Fonte: Clarice Lispector. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 2019, p. 63
Que o Deus venha: por favor.
Mesmo que eu não mereça. Venha.
Ou talvez os que menos merecem
mais precisem.
Sou inquieta e áspera e desesperançada.
Embora amor dentro de mim eu tenha.
Só que não sei usar amor.
Às vezes me arranha como se fossem farpas.
Se tanto amor dentro de mim recebi
e no entanto continuo inquieta
é porque preciso que o Deus venha.
Venha antes que seja tarde demais.
Corro perigo como toda pessoa que vive.
E a única coisa que me espera
é exatamente o inesperado.
Fonte: Clarice Lispector. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 2019, p. 63
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